Privilégio da informação

Acabei de ler a carta do Ali Kamel - presidente do jornal O Globo - sobre o Blog da Petrobras. Me intrigou o fato de tal carta ter sido publicada e depois removida do blog. Estranho. Mas graças ao santo Reader tenho um print da publicação.

O argumento central da carta é: nós, os órgão de imprensa, vivemos de informações privilegiadas, se vocês publicarem nossas perguntas, não as teremos mais e morreremos de fome.

Separei três dos sete parágrafos da carta para fazer alguns comentários.
Todos nós que trabalhamos em redações de jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão e sites da internet temos a noção exata do valor de uma informação exclusiva: revelar um fato em primeira mão é um atributo da qualidade do trabalho jornalístico, que o público reconhece e valoriza. Não há “nova era” que modifique isso. Mesmo um site jornalístico, que publica notícias em tempo real, quer ser o primeiro a dar um furo, porque sabe que, se isso for uma constante, atrairá cada vez mais pessoas que buscam bom jornalismo. Isso é uma verdade aqui e em toda parte do mundo.
Talvez o Sr. Kamel esteja correto quando diz que informações privilegiadas (ou exclusivas, como eles dizem) têm valor. E talvez a "nova era" realmente não mude isso. Porém, quem vive destas informações vai morrer de fome. Por que? Simples: como bem apontou o Soneca, a Internet - a "nova era"- é a revolução da liberdade de publicação*. Podemos inferir disso que a quantidade de informações públicas aumentará e teremos cada vez menos informações privilegiadas.**

Os atentos dirão: "Espere! A conclusão deveria ser ao contrario. Na verdade, quem vive disso ficará rico pois a revolução aumentará o valor da informação privilegiada devido à sua escassez.". Verdade, porém chegará (e está chegando) o momento em que a quantidade de informações privilegiadas será tão pequena que o custo de encontrá-la e mantê-la em segredo será tão alto que este trabalho de garimpagem não valerá mais a pena.

Talvez, e digo talvez porque isso é só uma teoria aleatória, esta seja uma das razões para o boom de factóides produzidos pela imprensa. Como ela não consegue encontrar informações realmente valiosas, produzem, modificam e manipulam fatos corriqueiros para adicionar algum valor a eles.

Vamos ao segundo parágrafo:
(...) Quando são grandes empresas, de reputação sólida, a explicação [de que se deve manter o sigilo das perguntas] costuma se absolutamente desnecessária: elas conhecem a seriedade dos órgãos de imprensa, sabem que o propósito deles é informar bem e não vêem problemas em guardar sigilo. Mesmo quando o assunto não é agradável, mesmo quando se trata da investigação de alguma denúncia. As grandes empresas sabem que, não havendo culpa, dolo, má-fé, basta dar as explicações.
Os argumentos acima são, no mínimo, cínicos. Nossos órgãos de imprensa não podem se gamar de seriedade. Como atribuir tal qualidade a órgãos cujo objetivo é "informar bem", mas que utilizam-se de ambiguidades e imprecisões para dar o tom que lhes é mais adequado a uma informação?

Lembro-me das aulas de português com a professora Ademarcí, quando aprendiamos que tais recursos de linguagem eram defeitos na composição que rendiam alguns pontos a menos na prova. Desculpem-me os poetas se estou agredindo recursos tão importantes para a composição artística. Mas aqui estamos falando de textos objetivos, duros, onde a precisão é um fator importante.

O terceiro e último parágrafo:
Os problemas só acontecem quando a fonte, objeto da denúncia, não tem confiabilidade: neste caso, todo tipo de sabotagem é posto em marcha. Se houvesse uma regra geral, ela deveria ser formulada assim: quanto menos caráter e mais culpa tem a fonte, menor é a probabilidade de um órgão de imprensa, ao ouvi-la, conseguir manter a exclusividade da informação. Em muitos casos, tenta-se até a censura por meios de ações no Judiciário.
Para finalizar com chave de bosta ouro, o presidente d'O Globo evoca a censura, e a coloca com tons de legitimidade apelando para o poder Judiciário. É, para mim, tenebroso ver um órgão de imprensa usando tal artifício. Isso é sério, muito sério!!

O resto do parágrafo é uma combinação cuidadosa e astuciosa das palavas: denúncia, menos caráter, mais culpa e exclusividade da informação.
Frente a uma denúncia, 
se menos caráter e mais culpa então
menor probabilidade de exclusividade.
Muito bem colocado, logicamente sonoro. No texto o autor não atribui explicitamente falta de caráter e culpa a quem não garante a exclusividade da matéria. Sua implicação é ao contrário: a falta de caráter ou excesso de culpa aumenta a chance de quebra do sigilo. Engenhoso... e ao mesmo tempo perverso. O que ele está dizendo para o leitor médio, que provavelmente não atentará para este detalhe da direção da implicação, é: a Petrobras - e empresas que agirem desta maneira - não têm caráter e provavelmente têm culpa.

Como bem disse o Idelber no ato publico contra o AI-5 digital, é muito ingênuo tomar a linguagem como forma de comunicação apenas.

* Publicação: "ato ou efeito de publicar", onde publicar significa "tornar público".
** Estou assumindo que a quantidade de informações - excluam-se os factóides, claro - em um determinado momento é fixa.

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