Eu respeito. E estamos conversados.

Não sou feliz por ser ateu. Ateísmo não me faz uma pessoa mais feliz. Mas isso é com isso que consigo viver. Já tentei e não consegui acreditar em Deus. Nem por isso acho que quem acredita é um idiota. Respeito sim a crença destas pessoas, e vou explicar.

Acho que meu ateísmo incomodou minha mãe em alguns momentos e, por isso, nós conversamos muito e pude entender melhor a interação crente*-Deus. E, provavelmente, ela entendeu minha relação discrente-Deus.

Um dia ela me disse: "Eu sinto Deus". Confesso que quando ela disse a frase passou em branco. Mas escutei isso de vários outros amigos crentes e isso ligou um alertazinho na minha cabeça.

Uma das coisas que fiz para entender melhor foi trocar a palavra "Deus" por "raiva", "amor", "dor"... E cheguei a conclusão que talvez este seja um bom argumento para ela acreditar em Deus. Observe que é bom para ela, não para mim porque eu não "sinto" Deus. Outra coisa importante nesta afirmação é que percebi a importancia de se respeitar isso, pois Deus é um sentimento para ela. E sentimentos merecem respeito.

Concordo que as ações decorrentes de "sentir Deus" devem ser questionadas e até mesmo combatidas se forem maléficas**. Isso é verdade para qualquer sentimento: raiva, amor, dor, ódio, etc.. Mas não vejo problema em uma pessoa dizer: "eu amo cerveja", "eu tenho raiva de pessoas idiotas", "eu sinto dor no joelho" ou "eu acredito em Deus". Sim, estou colocando crença como sentimento. Os crentes que me apresentaram tal argumento (ou semelhante) não "sabem", "racionalizam", "explicam", eles "sentem". E sentimentos, na minha opinião, devem ser respeitados. E eu respeito assim como respeito o amor, o ódio e a dor dos outros.

Também acho que cabe a mim, ateu sabichão, participante da conversa, além de respeitar, fazer um esfoço extra para entender este sentimento. Da mesma maneira que me esforço para entender como uma amiga consegue amar um cara muito chato (no caso, entendi. Ela namora o Motumbo).

Quando falo entender não o quero dizer no sentido "estático", i.e. aceitamento imediato. Mas de entender suas razões, de onde ele vem, até onde ele vai e por que eu não o sinto. E questioná-lo também! Questionamento faz parte do entendimento. Mas que isso seja feito como cuidado de quem questiona o sentimento dos outros.

Eu acho muito importante fazer este esforço para entender tal sentimento, mesmo que ela não consiga explicar direito. Primeiro porque o papel de um ouvinte em uma conversa é tentar entender o que o outro fala. Extrair o máximo de informação a partir do pouco dito.

Segundo que, como Deus é um sentimento, preciso fazer um esforço extra pois é sim complicado para qualquer um explicar sentimentos. O crente já sai perdendo. E terceiro, o esforço deve ainda ser maior pois eu sou um ignorante neste sentimento (da mesma maneira que não sinto nada pelo Motumbo). Talvez esta seja a razão pela qual minhas conversas com crentes (quando exclusivamente) são mais produtivas que com os ateus.

Por isso, amigos crentes, sintam-se livres para conversar sobre Deus comigo. Respeirtarei seu sentimento. Farei um esfoço extra para tentar entendê-lo. E o questionarei com elegância.

Beijo, me liga.


* Estou usando aqui o termo "crente" para designar aqueles que acreditam, não protestantes.

** Não quero entrar na discussão sobre moral aqui ou agora.

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